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13 de dezembro de 2016

A brincadeira é o próprio aprendizado

Uma caixa de papelão se transforma em automóvel. Depois, se torna boneca. E ainda vira berço. Nas mãos e na imaginação das crianças, frascos vazios, tampinhas de garrafas e folhas de árvores ganham vida e se transformam em brinquedos. Nessa brincadeira, é possível descobrir a si próprio, o outro e o mundo ao redor, de forma divertida e prazerosa. Algo tão simples e inerente à criança, mas que foi depreciado pelo modelo de educação vigente.

“A brincadeira é uma necessidade própria do ser humano. O brincar brota espontaneamente na criança, que desde bebê brinca com as próprias mãos, depois com objetos, explorando o mundo de forma própria, sem regras. É uma ação de autoconhecimento que permite fazer relações, reflexões e determinar coisas importantes para toda a sua vida. É por meio da brincadeira que ela cria, imagina, constrói imagens e memórias, se desenvolve corporal, cognitiva e emocionalmente”, diz Maria Lúcia Medeiros, coordenadora do Projeto Brincar.

“Muitos professores, depois de participar da formação, relatam que as crianças estão mais felizes porque estão brincando mais e com isso têm vontade de ir à escola. Por meio da brincadeira, elas adquirem conhecimento de si, ficam mais autônomas, criam e inventam mais, se relacionam melhor com os outros e aprendem coisas que levarão para o resto da vida. Para os professores, o Projeto Brincar proporciona mais leveza e alegria, porque muda o seu olhar em relação aos alunos e instiga a buscar soluções para as dificuldades que enfrentam. A escola ganha vida”, avalia Maria Lúcia.

O Projeto Brincar aborda a importância das brincadeiras e da vivência da infância, procurando transformar as práticas educativas. Ele vai na contracorrente de um modelo de educação que percebe o brincar como perda de tempo ou mero instrumento para aquisição de conteúdos curriculares. Esse modelo de educação também separa as crianças por faixas etárias, dificultando a interação e o rico aprendizado que se dá quando crianças de idades diferentes interagem. Isso se verifica especialmente quando se trata de bebês e crianças pequenas, que muitas vezes ficavam confinados em berços ou em espaços reduzidos, por conta da ideia de que são extremamente frágeis e necessitam de absoluta proteção.

O Projeto defende que a integração entre diferentes faixas etárias só traz ganhos. “Na escola onde trabalho, o Centro Educacional Unificado (CEU) Alvarenga, a integração é total. As crianças mais velhas acolhem os bebês de forma generosa, aprendendo que eles têm outro ritmo e outra forma de pensar. E os bebês aprendem com a linguagem dos maiores e suas formas de brincar”, diz Renata Cristina Dias Oliveira, coordenadora pedagógica da Prefeitura de São Paulo e membro do grupo gestor do Fórum Paulista de Educação Infantil.

A extensão do brincar a todo o período escolar seria uma boa saída para os horários rígidos e a falta de espaços voltados a brincadeiras nas escolas, que dissociam os momentos de brincar e de estudar. Além das brinquedotecas e do parque, todos os locais da escola poderiam ser utilizados. Afinal, as crianças constroem brincadeiras em qualquer lugar e a todo momento, mesmo que os adultos nem percebam.

“Nossa cultura adota uma concepção cartesiana, que separa corpo e mente, e isso se reflete na escolarização. Nesse modelo de ensino, o aprendizado é entendido como um processo cognitivo que só ocorre no ambiente escolar e é segmentado por disciplinas”, analisa Marcos Ferreira-Santos, professor de mitologia da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FE-USP). Marcos acredita que nesse modelo predomina a reprodução do conhecimento baseado na memória. Já a brincadeira e a experimentação produzem o conhecimento e uma postura crítica.

No mesmo sentido, Renata reflete: “A nossa forma de pensar inclui a configuração lúdica e imaginativa, que é interligada à brincadeira. Um engenheiro, por exemplo, exerce uma profissão extremamente racional, mas ele projeta o que não existe e que começa na sua imaginação. Essa separação entre raciocínio e criatividade, imaginação e ciência, não faz parte do humano”.

Educadores entram na brincadeira

“A brincadeira é o aprendizado e a produção de conhecimento. A brincadeira não auxilia no aprendizado, ela é o próprio aprendizado. Se a pessoa não se arrisca a passar pela experiência, não tem como produzir conhecimento”, pondera o professor Marcos. “Hoje os professores acham que é bom ampliar o período do recreio de 15 minutos para 30 minutos. Isso é falso, porque as crianças deveriam brincar o tempo todo quando estão na escola”.

O educador pode construir e preparar o espaço brincante, estimulando as crianças, mas não pode prever quais brincadeiras serão criadas. Ele se integra a esse espaço, não de forma invasiva nem diretiva, mas sendo convidado a participar das brincadeiras. Muitas vezes, o educador pode acompanhar a distância, de forma indireta, para que, mais tarde, as crianças compartilhem com ele suas descobertas.

As brincadeiras são uma via de mão dupla, que fortalecem o relacionamento e nutrem educador e crianças. Ao brincar com as crianças, o educador participa da construção do conhecimento e é capaz de oferecer novas propostas. Ele pode trazer objetos para incorporar às brincadeiras ou propor algo que tenha feito parte da sua infância e que talvez as crianças não conheçam. O educador também pode estimular as crianças a trazer brincadeiras para compartilhar com o grupo.

“Nas minhas aulas na graduação, eu faço uma provocação e substituo a palavra ‘pedagogia’, que tem origem no grego e significa conduzir a criança, por ‘brincalogia’, que seria conduzir as brincadeiras. Isso para despertar a ideia de que educador e crianças podem brincar juntos na construção de um saber mais universal, que possa dialogar com os outros e com outras culturas”, observa o professor da FE-USP.

Tudo vira brinquedo

Os recursos utilizados nas brincadeiras são muitos e diversos: brinquedos, sucata, cantigas de roda, contação de histórias, música, dança, desenho, modelagem, entre outros. Bastar ter vontade e tempo disponível, pois as crianças sabem brincar e fazem isso muito bem.

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“A brincadeira proporciona a integralidade das crianças, que se desenvolvem por inteiro. A brincadeira desenvolve a humanização, a criatividade, a interação com o outro, as linguagens, o enfrentamento das desigualdades, o poder de diálogo e negociação”, diz Renata. Entre outros aspectos, o brincar estimula a linguagem oral à medida que, durante as atividades lúdicas, a criança pode cantar uma música ou contar uma história, melhorando a comunicação.

A coordenadora pedagógica vê vantagens na utilização de objetos não estruturados, as chamadas “sucatas”, em substituição aos brinquedos prontos, pois favorecem o poder de criação e imaginação das crianças. Ao observar crianças brincando com esse tipo de objeto, percebe-se que o principal não é o brinquedo, mas sim o que se faz dele. Isso também ajuda a refletir sobre o excesso de consumo e as reais necessidades das crianças – são estas o desejo de possuir brinquedos que acabam de ser lançados ou a possibilidade de criar, fantasiar, se relacionar, construir seus enredos?

O brincar com objetos não estruturados também levanta a discussão sobre gêneros e etnias. “Por que há determinados brinquedos para meninos e outros para meninas? Por que os meninos não podem brincar de boneca? Brinquedo é brinquedo, não tem gênero. Mas os conceitos da nossa sociedade mercadológica permeiam as brincadeiras, que segmentam os brinquedos por gênero e por cor: rosa para as meninas e azul para os meninos.

Os objetos não estruturados também desconstroem a questão das etnias, já que os brinquedos femininos, por exemplo, geralmente reproduzem imagens de princesas brancas”, diz Renata. “Quando um frasco de amaciante se transforma em uma nave espacial, eu, como educadora, passo a compreender a forma de a criança pensar o mundo. Eu compreendo a criança pelo brincar, compreendo cada gesto e olhar, o que qualifica minha ação como professora.” (Plataforma do Letramento)